Fundos High Grade abaixo do CDI: por que acontece e o que fazer
Os fundos High Grade, dos mais conservadores do crédito privado, vêm rodando abaixo do CDI. Entenda a causa e por que pode ser uma janela de entrada agora.
Quem acompanha a carteira de perto provavelmente notou: nos últimos dois meses, muitos fundos High Grade entregaram retorno abaixo do CDI, apesar de serem das categorias mais conservadoras dentro do crédito privado.
Para quem escolheu esses fundos justamente em busca de previsibilidade, ver a cota render menos do que o CDI incomoda. Mas o movimento tem uma explicação técnica clara, e olhar para o histórico recente do mercado ajuda a entender que esse tipo de período costuma ser passageiro. Em vários episódios parecidos, ele abriu o que os gestores chamam de janela de carrego, que é, em termos simples, a rentabilidade esperada da carteira daqui para frente, considerando o preço a que os papéis foram comprados. Quanto mais alto o juro embutido no momento da compra, maior tende a ser o carrego e, por consequência, o retorno nos meses seguintes.
Por que os fundos High Grade estão abaixo do CDI
A queda recente dos fundos High Grade tem um nome conhecido no mercado: contágio. Ela começa com casos de grandes empresas que entraram em processo de reestruturação ou recuperação extrajudicial.
É o que aconteceu com a Raízen, que protocolou pedido de recuperação extrajudicial com R$ 65 bilhões em dívidas, e com o Grupo Pão de Açúcar, que também teve recuperação extrajudicial aceita pela Justiça para renegociar cerca de R$ 4,5 bilhões. Casos desse porte mexem com a confiança do investidor de crédito privado como um todo, mesmo de quem não tinha nenhuma exposição às empresas envolvidas.
E é aqui que o contágio aparece. Quando casos assim viram notícia, parte dos investidores corre para resgatar fundos de crédito privado ao mesmo tempo, com receio de novas surpresas. Para atender esses pedidos, os gestores precisam vender também títulos de outras empresas saudáveis em carteira, e essa venda em volume derruba o preço deles. Como o fundo atualiza o valor da cota todo dia com base no preço de mercado dos papéis que tem (a chamada marcação a mercado), a cota recua e o retorno aparece abaixo do CDI, mesmo sem nenhuma empresa da carteira ter deixado de pagar.
Esse efeito de contágio sobre os preços dos papéis é uma reação da dinâmica do mercado, não um problema na qualidade do crédito em si. Por isso, em vez de reagir vendendo junto, os bons gestores têm aproveitado essa pressão de venda para comprar mais títulos, agora com taxas de juros bem mais altas do que estavam antes do estresse. Cada papel que entra na carteira nesse momento aumenta o carrego do fundo, ou seja, a rentabilidade esperada para os próximos meses, à medida que o mercado se normalizar.
O que COVID-19 e Americanas mostram sobre crédito privado
Esse padrão de estresse no curto prazo, cota recuando e depois retomada com carrego mais alto, já apareceu em outros momentos.
Foi o que se viu no início da pandemia de COVID-19, em 2020, quando fundos High Grade chegaram a render apenas cerca de 40% do CDI no acumulado do ano e tiveram retorno negativo no mês de março.
Em ambos os episódios, o que veio depois foi recuperação. Em materiais da AZ Quest analisando o comportamento de seus fundos de crédito privado nesses dois períodos, é possível observar o padrão de forma bastante clara: vários fundos High Grade ficaram alguns meses abaixo do CDI no auge do estresse e levaram entre 9 e 27 meses para retomar o indexador, dependendo do fundo e do evento. E quem manteve ou aumentou a posição nesses momentos de estresse capturou retornos entre 130% e 200% do CDI ao longo dos meses seguintes, considerando o desempenho dos fundos do ponto mais baixo até a retomada do CDI, com alguns produtos atingindo desempenhos ainda mais elevados em janelas específicas.
Não é garantia de repetição, mas é um padrão consistente. Quando o estresse vem por contágio, e não por deterioração estrutural do crédito, a retomada chega, e quem estava posicionado capturou a maior parte dela.
Janela de entrada ou hora de sair? A leitura da Valle
A nossa leitura na Valle é que o momento atual se parece mais com uma janela de entrada do que com um sinal de saída.
Para o investidor conservador, que muitas vezes olha só o passado recente e pensa em reduzir exposição depois do choque, a recomendação tende a ser a oposta. Foi justamente em momentos como esse, em que a cota incomoda e a manchete assusta, que fundos High Grade bem geridos historicamente entregaram os melhores resultados nos meses seguintes.
Na prática, para o investidor conservador que já tem sua reserva organizada e tolerância para um horizonte de meses, esse é um momento mais para considerar reforçar a posição em High Grade do que para reduzi-la, sempre com a leitura caso a caso da sua carteira. Sair agora costuma ser o pior dos dois mundos: travar a perda e, ao mesmo tempo, abrir mão do carrego maior que está se formando dentro do fundo, justamente por causa das compras que os gestores estão fazendo a preços mais atrativos.
Vale lembrar que essa decisão não é genérica. O que faz diferença na prática é a qualidade do gestor, a composição da carteira do fundo, o prazo médio dos papéis e o seu horizonte como investidor.
Como a Valle Investimentos ajuda você a decidir
A Valle Investimentos é um dos escritórios mais experientes e premiados da XP no Brasil, e essa combinação de experiência com uma plataforma de prateleira ampla costuma fazer diferença em momentos como o atual, em que escolher bem o gestor, o emissor e o prazo importa mais do que "qual produto está na moda".
Se você tem uma carteira em fundos de crédito privado e quer entender se faz sentido manter, reforçar ou ampliar a posição agora, fale com seu assessor na Valle.
A gente revisa a carteira em conjunto, mostra onde está o carrego dos fundos que você já tem e o que faz sentido manter, reforçar ou ajustar dentro do seu perfil e horizonte.










